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São duas da manhã, a luz já está apagada, e existe um zumbido específico que consegue tirar qualquer pessoa do sono em segundos. Você acende o celular, procura o pernilongo na parede, não acha, apaga a luz de novo, e o zumbido volta cinco minutos depois. Se essa cena é familiar, você já deve ter esbarrado em algum aplicativo prometendo resolver isso com um som que o ouvido humano quase não percebe.
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Esses aplicativos existem aos montes nas lojas, e dois deles aparecem com frequência nas buscas: o Ultrasound Barrier, da desenvolvedora japonesa USE Engineering Corporation, disponível pra Android, e o Sons Repelentes de Pernilongos, da KoruApps, disponível pra iOS. Antes de sair testando, vale entender o que essa tecnologia promete, o que ela realmente faz e onde a ciência ainda deixa dúvida no ar.

Baixe e teste você mesmo
Um aplicativo gratuito que emite frequências ultrassônicas pra tentar afastar pernilongos, moscas e outras pragas. Disponível nas duas principais lojas.
downloads no Android
4,4 de nota no iOS
Como o som consegue, ou tenta, afastar pernilongos
A ideia por trás desses aplicativos parte de duas teorias bem conhecidas na biologia dos insetos. A primeira é a frequência do batimento de asas: mosquitos fêmeas, que são as que picam, reconhecem o som produzido pelas asas dos machos durante o acasalamento. A teoria é que, ao emitir um som parecido, o aplicativo faz a fêmea pensar que um macho está por perto e se afaste, já que ela evita se aproximar de outro macho depois de acasalar.
A segunda teoria usa o som de predadores naturais do mosquito, como libélulas e alguns morcegos, que se movimentam emitindo frequências na faixa dos ultrassons. A lógica aqui é simples: se o inseto reconhece o som de quem o caça, ele se afasta por instinto de sobrevivência.
Na prática, o Ultrasound Barrier trabalha com uma faixa de frequência entre 15kHz e 20kHz, com sons específicos pra cada finalidade: 16kHz pra moscas, 17kHz pra mosquitos, 18kHz pra cães, 19kHz pra gatos e 20kHz pra ratos. Existe até uma frequência de 15kHz chamada de “Youngster”, que na verdade não tem relação com insetos, é a mesma técnica usada em alguns comércios pra afastar grupos de adolescentes de calçadas, já que ouvidos mais jovens captam frequências que adultos não escutam mais.

O que a ciência diz sobre repelentes de ultrassom
Aqui vale um parênteses honesto, porque é fácil vender esse tipo de aplicativo como solução definitiva, e não é bem assim. Estudos controlados sobre dispositivos ultrassônicos de repelência, tanto os aparelhos físicos quanto os aplicativos que usam o mesmo princípio, não encontraram diferença estatística relevante entre áreas com o som ligado e áreas sem nenhum tipo de proteção.
Um dos estudos mais citados nesse campo comparou ambientes com e sem o som ativo e não achou nenhuma redução consistente na quantidade de picadas. Esses testes com dispositivos ultrassônicos físicos vêm sendo feitos desde os anos 1990, e o resultado se repete: em condições controladas, com pessoas voluntárias expostas a mosquitos num ambiente fechado, a presença do som não muda de forma relevante quantas picadas cada grupo recebe.
Isso não impede que fabricantes e desenvolvedores continuem lançando produtos com essa proposta, já que o custo pra produzir um app ou um aparelho pequeno é baixo e a demanda por soluções práticas contra mosquito é alta o ano inteiro, especialmente em países tropicais como o Brasil. A distância entre “não foi comprovado que funciona” e “foi comprovado que não funciona” também ainda gera debate entre pesquisadores, o que mantém esse tipo de produto num limbo científico, nem totalmente validado, nem totalmente descartado.
O próprio aplicativo Sons Repelentes de Pernilongos é transparente sobre isso na sua descrição na loja, deixando escrito que “não está cientificamente comprovado a 100% que esses sons de baixa frequência repelem insetos e outras pragas”. Isso não significa que o aplicativo é inútil, muita gente relata sensação de melhora, principalmente em ambientes fechados e à noite, mas é importante entrar com expectativa realista: é uma camada extra de tentativa, não um substituto de repelente comprovado ou tela mosquiteira.
Conheça o app: pernilongo, mosca, barata e rato num só lugar
Enquanto o Ultrasound Barrier é mais direto, com sons fixos por categoria, o Sons Repelentes de Pernilongos, disponível pra iPhone, iPad e Mac com chip M1 ou superior, foi construído com uma proposta mais completa. O aplicativo tem nota 4,4 de 5 com mais de 500 avaliações na App Store e é gratuito pra baixar, com compras dentro do app que variam de R$ 12,90 a R$ 59,90.
A ideia central é a mesma, escolher o inseto ou praga que você quer afastar (mosquitos, moscas, baratas ou ratos) e o aplicativo emite a frequência ultrassônica correspondente. Só que ele vai além disso: traz uma enciclopédia com informações sobre cada espécie, horário de atividade, habitat preferido e dicas de prevenção, o que ajuda quem quer entender o inimigo antes de tentar afastá-lo.
A versão paga libera alguns recursos a mais: um modo chamado “Proteção Inteligente” que alterna as frequências automaticamente ao longo do tempo (a teoria é que isso evita que o inseto “se acostume” com um som fixo), remoção de anúncios, frequências avançadas exclusivas, temporizador de desligamento automático e a possibilidade de deixar o som tocando em segundo plano enquanto você usa outros aplicativos no celular.
Android ou iPhone: o que muda entre os dois aplicativos
Vale entender a diferença antes de escolher qual instalar, porque não é só uma questão de sistema operacional. O Ultrasound Barrier, feito pra Android, segue uma proposta mais enxuta: você escolhe a categoria (mosquito, mosca, cão, gato, rato ou “youngster”) e o app toca a frequência fixa correspondente. Não tem enciclopédia, não tem modo automático, é direto ao ponto, o que agrada quem só quer testar rápido sem navegar por menus.
Já o Sons Repelentes de Pernilongos, feito pra iPhone, iPad e Mac, investe em uma experiência mais robusta, com conteúdo educativo sobre cada praga, alternância automática de frequência na versão paga e a opção de deixar tocando em segundo plano enquanto você usa outros aplicativos, algo que o Ultrasound Barrier não oferece. Se você usa Android e quer algo parecido com essas funções extras, vale procurar por outras opções na Play Store, já que o ecossistema de aplicativos desse tipo muda com frequência.
Como usar pra tirar o melhor proveito
Se você decidir testar, alguns ajustes simples fazem diferença na experiência. Primeiro, prefira ambientes fechados e silenciosos, como o quarto durante a noite, já que ruído externo (ventilador, trânsito, ar-condicionado) pode camuflar o som e reduzir qualquer efeito percebido.
Segundo, deixe o volume do celular no máximo. A frequência ultrassônica já é quase inaudível pra maioria dos adultos, então um volume baixo praticamente anula o som antes mesmo de ele sair do alto-falante. Terceiro, se o seu aparelho tiver bateria limitada, use o temporizador (quando disponível) pra não deixar o app rodando a noite inteira sem necessidade, e cuidado ao colocar o celular perto do travesseiro com volume alto por longos períodos.
Vale lembrar também que celulares diferentes têm alto-falantes diferentes, e nem todos reproduzem bem frequências acima de 15kHz. Um aparelho mais antigo ou um modelo de entrada pode simplesmente não conseguir emitir o som com a mesma intensidade de um celular mais recente.
Vale usar sozinho, ou é melhor combinar com outros métodos?
Sendo direto: trate o aplicativo como um complemento, não como sua única linha de defesa. Métodos com eficácia comprovada continuam sendo a base de qualquer estratégia contra pernilongos: eliminar água parada em vasos, pratos de planta e calhas (onde o mosquito da dengue se reproduz), usar tela mosquiteira em portas e janelas, repelentes à base de DEET ou icaridina na pele, e mosquiteiro sobre a cama em regiões de maior incidência.
O aplicativo entra bem como uma camada extra, principalmente em situações onde as outras opções não são práticas: uma noite de acampamento, uma varanda sem tela, ou aquele momento em que você só quer tentar qualquer coisa às duas da manhã antes de acender a luz de novo. Não é o herói da história, mas também não custa nada testar, já que a versão gratuita de ambos os aplicativos já dá pra experimentar sem gastar um centavo.
O som do aplicativo faz mal aos ouvidos?
Não. As frequências usadas ficam no limite superior da audição humana ou acima dele, então a maioria das pessoas mal percebe o som conscientemente, mesmo no volume máximo do celular.
Funciona pra afastar mosquito da dengue?
A teoria por trás do aplicativo não distingue espécies de mosquito, mas os estudos disponíveis sobre repelência por ultrassom, incluindo o Aedes aegypti, não mostram resultado consistente. Não use como única proteção contra dengue, zika ou chikungunya.
Meu cachorro ou gato pode se incomodar com o som?
É possível, já que cães e gatos escutam frequências mais altas que humanos. Se o seu pet demonstrar desconforto, agitação ou tentar se afastar do celular, é melhor não usar as frequências voltadas pra “cão” e “gato” perto dele.
Preciso pagar pra usar o aplicativo?
Não. Os dois aplicativos citados têm versão gratuita funcional. As compras dentro do app liberam recursos extras, como alternância automática de frequência e remoção de anúncios, mas não são obrigatórias pra usar a função principal.
O aplicativo consome muita bateria?
Sim, deixar a tela ligada e o som ativo a noite toda gasta bateria de forma perceptível, principalmente em celulares mais antigos. Use o temporizador quando disponível, ou conecte o celular ao carregador enquanto o app estiver rodando.
Baixe e teste você mesmo
Um aplicativo gratuito que emite frequências ultrassônicas pra tentar afastar pernilongos, moscas e outras pragas. Disponível nas duas principais lojas.
downloads no Android
4,4 de nota no iOS
Nenhum aplicativo substitui os cuidados básicos contra o mosquito da dengue. Continue eliminando água parada e usando repelente comprovado, o som é só um extra pra tentar dormir em paz.

Comentários
248 comentários
Testei duas semanas no quarto do meu filho e ele parou de acordar de madrugada se coçando. Pode ser coincidência, mas não vou parar de usar
Levei numa pescaria de fim de semana, deixei tocando a noite toda perto da barraca. Não posso garantir que foi 100% por causa do app, mas picou muito menos que da última vez
Confesso que baixei achando que não ia funcionar, mas uso todo verão desde o ano passado. Pelo menos não faz mal nenhum testar, e é de graça
Fernanda, mesma coisa aqui. Uso mais pela paz de espírito do que por confiar 100%
Muito bom que o texto foi honesto e não ficou prometendo milagre. Já vi review de outros sites inventando um monte de coisa
Instalei no celular velho que ficou de sobra e deixei fixo na varanda, funciona como um repelente extra bem em cima da mesa
Uso o do iPhone com o modo automático, gostei que ele troca a frequência sozinho. Já indiquei pra minha mãe também
Continuo usando repelente normal também, mas deixo o app ligado à noite. Prefiro ter as duas camadas de proteção